sexta-feira, 2 de março de 2018

Na Corda bamba de sombrinha...

"Entre a tristeza e a alegria, entre o medo e a fé, perambula meu sorriso de palhaço. Vou para rua impulsionado por uma louca emoção infantil, sou ingênuo, acredito na bondade alheia. Recolho meu ganhos no meu chapéu ou na minha caneca, como faço agora com vocês". (*)


Especialista em improviso ou em lidar com o inesperado, na minha segunda apresentação dentro do "Maravilhoso Mundo da Mímica", no dia 18-02, na "comedoria" da unidade do SESC de Piracicaba, na qual eu devia só ficar interagindo, acabei desenvolvendo uma história para uma plateia recheada de crianças pequenas. Foram quarenta minutos de improviso e, no final, fiquei sentindo falta de um fechamento para minha proposta.

Sou consciente que na maioria das vezes que tento representar um espetáculo formal, de palco, acabo me dando mal, já que preciso da energia que vem do contato direto com as pessoas, como quando vou "brincar" espontaneamente nas ruas.

Na apresentação do meu espetáculo "As Peripécias do Mímico Andarilho", dentro do projeto "Domingo no Parque", da Fundação Cultural Cassiano Ricardo, em São José dos Campos, no dia 25-02, acabou acontecendo o inverso. Com medo de perder a plateia, abusei da brincadeira com o público no começo, transformando o diálogo espontâneo no próprio espetáculo, que bem poderia se chamar de "Interação Pura". A diferencia é que consegui fechar a história recitando a poesia acima, depois de ficar improvisando sem falar durante aproximadamente quarenta e cinco minutos.

Tanto os moradores de São José dos Campos quanto os de Piracicaba ainda preservam um jeito simples caipira de ser. Fico pensando no palhaço solto no meio da rua e na sua função social, vejo o rosto dos adultos e das crianças que vem me abraçar no final do espetáculo. Olho dentro da minha caneca e noto que tem um bom dinheiro ganho com a "gorjeta" espontânea do público. Vou embora com meu coração radiante de emoção e minhas pernas cansadas após a jornada de trabalho. Fico grato pelo meu ofício de "brincante popular"...

Foto de Paulo Amaral



Mais fotos da apresentação do parque no link:
https://www.facebook.com/media/set/?set=a.1819524828120637.1073742766.146170118789458&type=3

(*) Poesia de espetáculo "As Peripécias do Mímico Andarilho"

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Entre o oficial e o paralelo...

“-Moça, uma moeda, por favor...”, ouvi o jovem violinista dizer à mulher que passava pela rua. Isso, numa esquina do bairro do Gonzaga, na cidade de Santos, onde morei no comecinho da década dos anos ’90. Naquela época vivia de rodar o chapéu, apresentando-me de noite, na frente dos bares perto da orla. É impressionante ver como a cidade cresceu em tão pouco tempo e perdeu parte do seu encanto. Senti-me pequenininho ante a opulência urbana, o trânsito de carros e pessoas. Tudo muito. Compra e venda. No movimento intenso da calçada vi vários moradores de rua em frente às lojas, artesãos oferecendo seus produtos e vendedores de qualquer coisa junto a alguns artistas de rua. Vi um garoto pintado de prateado com o cabelo estilo punk no intervalo da sua representação, degustando seu lanche sentado, bebendo refrigerante em lata, vi um trompetista do lado do seu instrumento que estava apoiado diretamente no chão, contando moedas de centavos de real. Uma criança me olhou de forma simpática ao ver o desenho do Mímico Andarilho estampado na minha camiseta. Acho que pensou que eu também ia me apresentar por ali. Que nada, fiquei apavorado. O curioso é que eu estava vindo da cidade de Piracicaba, de apresentar meu espetáculo que tem como personagem central um artista de rua que faz “Peripécias” para conseguir dinheiro para sua sobrevivência.

Odiei o menino do violino que me pediu ao passar uma moeda para pagar a sua faculdade, a mim, que sempre consegui pagar minhas contas com esforço, tendo que fazer rir muito as pessoas nas ruas, mas jamais pedindo esmola...

E foi minha capacidade de “brincante” de rua a que rendeu como fruto o projeto que o pessoal do SESC da unidade de Piracicaba chamou de “Maravilhoso mundo da mímica”, quando apresentei um improviso nas comemorações do aniversário daquela cidade. Na ocasião, o programador do SESC me pediu o contato de mímicos, já que tinha a intenção de realizar uma mostra dessa linguagem no verão, no formato dos festivais de mágica que tinham acontecido por lá nos dois anos anteriores. Depois de consultar um amigo envolvido no meio dos mímicos, acabei chamando seis grupos e elaborando uma grade que depois fora adaptada de acordo com a necessidade do SESC. Dos seis grupos que indiquei, foram contratados quatro, comigo cinco. São intervenções e espetáculos interativos no espaço da convivência, alem de apresentações de espetáculos no auditório da unidade, durante os meses de Janeiro e Fevereiro, aos Domingos e Quartas feiras, dentro do Projeto SESC-Verão.

Foto de Ricardo de Paula

Fico feliz de ter contribuindo para esse encontro de pessoas ligadas a arte da mímica.
Fazem parte da programação do "Maravilhoso mundo da mímica" o mímico Jiddu Saldanha, de Cabo Frio, RJ, além da Cia Solar da Mímica, de Alberto Gauss, a Cia Mimos, o Mímico Newton Yamassaki e eu do estado de São Paulo.

Links sobre a atividade:



https://issuu.com/sescpiracicaba/docs/janeiro2018

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

E o dinheiro rolou pelo chão...


Muitas vezes as crianças choram ao ver um rosto branco, especialmente as menores, de dois anos de idade, já que elas estão em fase de descoberta do mundo. Algumas ficam olhando, atraídas, estando longe do palhaço, mas, se chegar perto, lá vem o choro. Tem criancinhas que não tem medo de nada, ao contrário, montam na garupa da minha “burrinha” ou então ficam dançando ao ouvir o som de jazz saindo da caixinha de som pressa a minha cintura.
Gosto de respeitar a livre expressão das crianças e apreender com elas.
É uma luta fazer entender aos adultos pais sobre a importância de deixar fluir a reação espontânea dos pequenos e de como isso às vai tornar pessoas mais seguras e independentes. Crianças com pais mais desencanados, que deixam seus filhos expressar-se naturalmente, são mais felizes.
No outro dia aconteceu um fato interessante, na frente de um restaurante onde eu me apresentava, em Campos do Jordão. Numa mesa tinha uma menina dessas de dois anos de idade que ficou encantada na minha presença, levantou e começou me olhar desde o seu mundo. Eu tentei interagir com ela sem invadi-la, como sempre o faço Os pais da menina, sentados á mesa, tentavam traduzir para ela o que estava acontecendo entre nós. O pessoal das outras mesas ficou observando o momento de “encanto” da relação entre palhaço e criança. A brincadeira de ação e reação entre nós durou um bom tempo, com a interferência dos pais dela, é claro. No final, para estragar de vez história, a mãe da menina colocou dois reais na mão da pequena e a obrigou a me entregar, como pagamento pelo meu serviço. A menina, sem entender a situação, jogou os dois reais no chão. A mãe pegou a nota do chão instigando a menina a me entregar. Está jogou o dinheiro no chão novamente e começou chorar. No ato, eu peguei os dois reais e repeti a ação da menina, pegando e jogando a nota para vários lugares do chão. A menina parou de chorar de repente. Senti que o público ficou meio chocado pelo fato de eu estar literalmente “Jogando dinheiro no chão”. No fim, fechei a apresentação, coloquei a nota no bolso e continuei minha caminhada pelas ruas. Dinheiro não é tudo na vida. Quem sabe essa criança continue ficando encantada diante da presença do palhaço... 

Foto de Ricardo de Paula



sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

"Happening Popular Brasileiro"

No momento político atual, de incerteza e desconfiança geral, as pessoas tendem a rotular, enquadrar e classificar ainda mais. O Brasil, que sempre caracterizou-se pela sua mistura, sua ginga, seu molejo, seu “vai não vai”, ficou radical e perdeu a sua essência.

Desde o começo, em Buenos Aires, Argentina, em meados da década de 80, minha arte sempre se deu na troca direta com as pessoas, seja nas ruas ou em qualquer outro tipo de espaço, inclusive em sala formal de espetáculos.

No Brasil, sinto-me parte da gama de artistas populares como o são os mamulengueiros, os repentistas, os contadores de histórias de Cordel, etc.

O personagem “Burrinha”, presente em várias manifestações populares, acabou fazendo parte de mim e do meu trabalho.

“Happening”

De acordo com o Wikipédia

O happening (traduzido do inglês, "acontecimento") é uma forma de expressão das artes visuais que, de certa maneira, apresenta características das artes cênicas. Neste tipo de obra, quase sempre planejada, incorpora-se algum elemento de espontaneidade ou improvisação, que nunca se repete da mesma maneira a cada nova apresentação.

Apesar de ser definida por alguns historiadores como um sinônimo de performance, o happening é diferente porque, além do aspecto de imprevisibilidade, geralmente envolve a participação direta ou indireta do público espectador.

“Happening Popular Brasileiro”

No papel de “Mímico Andarilho“, estou com um esquema pronto para viagem, que consiste numa estrutura de trabalho, na qual proponho encarnar meu personagem e “deixar rolar".

A estrutura consiste num repertório de música popular brasileira para flauta, com chorinhos, sambas e baiões, de autores como Pixinguinha, Ari Barroso, Zequinha de Abreu, Ernesto Nazaré e Dominguinhos, além de uma síntese do meu espetáculo de mímica interativo, que carrego na minha pequena mala e uma “burrinha” menor e desmontável. Posso levar também a cabeça do lampião com cruzamento de ruas, que é adaptável a aqueles cabides de madeira fáceis de encontrar em qualquer canto do Brasil, caso apresente numa sala de espetáculos.

A minha proposta é levar alegria às pessoas dos lugares por onde passar e gerar autoestima.

Nova "Burrinha", desmontável e com carcaça menor




terça-feira, 17 de outubro de 2017

Expressão Livre...

João Maria Rilke, em seu livro “Cartas a um Jovem Poeta” afirma que a arte é pura necessidade ao dizer: “Escreva no momento em que se não o fizer você morre”.

Vejo pessoas querendo julgar a arte como se isso fosse possível. A arte é a expressão livre por excelência. Por sorte, além dessa corrente escura e conservadora existe uma outra bem mais forte e jovem, trazendo ares de mudança, de renovação, próprios da era de aquário, com valoreis tais como os de “seja você mesmo”.

A arte de rua tem um forte papel político, especialmente a de intervenção,  porque defende a liberdade de expressão e dialoga com o cotidiano.

Ser, se expor, trocar diretamente, olho no olho, resgatar o espírito de criança que está dentro das pessoas, trazendo alegria. Conseguir o dinheiro necessário para viver, reciclando estado de ânimo e auto-estima.

É verdade que nesse ano tão difícil tive que me sujeitar a situações complicadas, como ter que ficar bem mais tempo do que o usual, sob o sol, me expondo para ganhar bem menos e ainda trabalhando para turistas de classe média, em Campos do Jordão. Mas o esforço não foi privilégio meu, já que a dificuldade bateu geral. Apesar de tudo, do desgaste emocional e físico, sinto que valeu a pena, porque sempre vai valer a pena quando a alma não for pequena...

Por sorte tenho sido premiado nesses últimos meses com contratos de instituições como SESC, que me permitem viajar para diferentes cidades do estado e dialogar com pessoas simples moradoras do lugar, sem ser turistas. Nesse último Domingo me apresentei no Parque Vicentina Aranha, em São José dos Campos, contratado pela AJFAC (Associação Joseense para o Fomento da Arte e Cultura). Lá o público é de classe média, dado o bairro onde é localizado o parque. mas, a beleza do lugar e a paz que ele proporciona fazem com que toda vez em me apresento por lá seja mágico..

Apresentação no Parque Vicentina Aranha, Domingo 14-10-2017 (Foto de Diego Nery Javkin)

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

"Peripécias"

De acordo com o dicionário da língua portuguesa, a palavra peripécia é um substantivo feminino e significa: 1- Momento de uma narrativa, peça teatral, filme etc. que altera o curso dos acontecimentos de maneira inesperada e modifica a situação e o modo de agir dos personagens. 2 - Acontecimento inesperado, imprevisto.

“As Peripécias do Mímico Andarilho“ é o nome com que minha amiga Adriana batizou o novo formato de meu espetáculo no qual faço uma paródia sobre meu labor de artista de rua. É foi na mágica arena do Parque da Cidade, em São José dos Campos, SP, exatamente no Sábado 02 de Setembro de 2017, na mostra “oficial” chamada Entre Atos, pela Fundação Cultural Cassiano Ricardo, que ascenderam as lampadinhas, deixando claro que o caminho a seguir e o do improviso, onde tudo pode acontecer. Não é diferente a quando vou para rua enfrentar as pessoas de forma espontânea batalhando minha grana no chapéu, ao contrário, se alimenta desse fato.

Fiz da apresentação do parque um momento de festa assim como quando os fatores ajudam e consigo, por exemplo, conquistar as pessoas nas ruas de Campos do Jordão, de forma espontânea. No espetáculo, tudo fez parte da “brincadeira”, desde chamar o público para a apresentação, passando pela acomodação deste nas arquibancadas até qualquer imprevisto no meio da história.

Outra coisa que senti e a necessidade de treinar mais técnica de mímica para melhorar as pantomimas, lembrando as palavras do mestre Everton Ferre em seu discurso sobre a importância de se preservar essa arte.

Falando em “Peripécias”, sabendo que nesse ano tão difícil tenho conseguido sobreviver graças à capacidade de improviso nas ruas e aos ganhos provenientes do chapéu, não deixo de reconhecer que é bom dar uma respirada de vez em quando, receber cachê e sair na programação de alguma instituição.

Foto de Ricardo de Paula
Na Semana da Criança estarei apresentando minhas “Peripécias” nos Dias 08 e 15 de Outubro, no Parque Vicentina Aranha, em São José dos Campos, SP, contratado pela AJFAC e no dia da Criança, 12 de Outubro, no Horto Florestal de Limeira, contratado pelo SESC daquela região.

http://www.pqvicentinaaranha.org.br/programacao-detalhe/intervencao:-as-peripecias-do-mimico-andarilho/591

http://www.limeira.sp.gov.br/sitenovo/news.php?p=3612

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Na base de rodar o chapéu...

Não posso deixar de dar importância ao fato de “rodar o chapéu”, inclusive porque, em maior parte, é a colaboração espontânea do público, em Campos do Jordão, que tem me sustentado neste ano tão difícil.

Olha só, do meu primeiro trabalho institucional neste ano, no começo do mês de Agosto, surgiu a proposta para eu ajudar a montar uma grade para um possível festival de mímica a ser realizado por uma unidade de um SESC do interior do estado em Janeiro ou Fevereiro de 2018. Lá fui eu, com toda minha melhor boa vontade, reunir mímicos com trabalhos consolidados para tal evento. Falei com “profissionais” na maioria do estado de São Paulo e alguns de outros estados, como Everton Ferre, que conheci em Curitiba, estando eu de passagem por lá, antes de me radicar em Porto Alegre - RS, no ano de 1987.

 Everton fala da importância de se ter um festival de mímica e ainda sugere: – “Diz para o programador do SESC não se preocupar com o meu cachê, eu prefiro rodar o chapéu mesmo. Mando um termo de compromisso de que meu espetáculo será sem cachê e que eu mesmo pagarei as minhas dispensas na cidade”.
                       
Everton é um idealista que se mantém fiel aos seus valores, apesar de ter aproximadamente a minha idade. Tudo bem que na região sul as pessoas estão acostumadas a colaborar com os artistas no chapéu. Já tentei copiar sem êxito aqui, em São José dos Campos, uma coisa que ele faz lá no sul, ou seja, me apresentar nas escolas na base de rodar o chapéu. Pelo geral eu consigo meu dinheiro na rua quando pego as pessoas sentadas num bar ou restaurante e consigo prender a atenção delas durante um bom tempo.

O trabalho do Everton é técnico e detalhista. Ele apresenta um mesmo tipo de esquema independente do espaço, seja rua, pátio de escola, teatro, etc, que consiste numa série de esquetes de mímica, as quais realiza há anos. Bem diferente do meu, que é mais espontâneo, na base do improviso e do confronto direto com o público, independente do esquema.


Parece que a galera de teatro de São José dos Campos entende e dá valor ao meu trabalho, tanto assim que me convidou a participar do “Entreatos”, que é uma mostra que traz uma intensa programação em diferentes tipos de espaço em várias regiões da cidade. Apresentarei “As Peripécias do Mímico Andarilho”, espetáculo que fala justamente da utópica visão de mundo de quem vive da arte na base de rodar o chapéu...

O Mímico Everton https://www.facebook.com/mimicoeverton/