quarta-feira, 12 de outubro de 2016

A importância de "brincar"


No mesmo formato de outras atividades das quais já participei em São José dos Campos, como o "Recriança", realizado pelo SESI e os festejos do Dia da Criança, realizados pela Prefeitura local, no Parque da Cidade Burle Marx, cheguei de manhãzinha na Praça Doutor Gama, em Birigui, no dia Sábado, 08 de Outubro, para me apresentar no "Brinca Birigui", sob forte sol e clima seco.

"Brinca Birigui" é um evento que acontece todo ano naquela cidade, em comemoração ao dia das crianças,  realizado numa parceria entre o Sindicato das Industrias do Calçado, a Prefeitura, o SESI e o SESC locais.

Sendo contratado pelo SESC, minha tarefa foi simplesmente "brincar" livremente como o faço na rua enquanto mímico, utilizando as vezes a "burrinha" para interagir com o público presente na praça, no meio a uma série de outras atividades que aconteceram em conjunto (shows no palco apresentados por grupos de jovens de escolas da região, brinquedos infláveis, rua de lazer, pintura de rosto, etc.).

"Brinca Birigui 2016"
http://sindicato.org.br/noticias/projetos/sabado-divertido-com-o-brinca-birigui-na-praca

Depois de ter viajado três vezes á região Noroeste do estado nesse ano, em Janeiro, no final de Agosto e agora em Outubro, deu para perceber que as pessoas de lá aceitam bem esse tipo de trabalho, em que o mais importante é o diálogo.

Gostaria  muito de ter conseguido me apresentar também de forma espontânea nas ruas, na base de rodar o chapéu, nas cidades onde passei, o que acabou não rolando. Mas, teve a conversa com os moradores, a observação dos locais e das pessoas, a sensação do clima ambiente, etc.

Dessa vez fui para Araçatuba que fica a dezessete quilômetros de Birigui e onde já tinha apresentado meu espetáculo formalmente pelo SESC. Meu intuito era aproveitar o fato de ter que chegar obrigatoriamente um dia antes do evento por causa do horário do ônibus, observar os locais e realizar intervenções. Sinceramente não senti "firmeza". Durante o dia achei o calçadão de Araçatuba meio apagado apesar do sol forte. Isso, somado ao cansaço da viagem, etc. De noite, pensei em brincar na frente dos restaurantes, já que era sexta feira e, pelo geral, o povo aproveita para sair. Realmente a atual crise econômica bateu forte nas pessoas, um dono de bar me disse que atualmente não consegue vender numa semana o que antes vendia durante um só dia."Eu nunca vi uma crise dessas", ele me diz...

Eu sempre me dei bem em época de crise com meu labor de palhaço, porque as pessoas precisam rir para não pirar. Lembro-me da época do Plano Collor, lá para final da década de 80, em que eu "brincava" no calçadão de Porto Alegre, RS e fiquei até famoso na cidade por causa disso. Também lembro que no final do governo FHC, em que o desemprego era altíssimo, eu ganhava a vida realizando minhas performances espontâneas nos bares e restaurantes de São José dos Campos.

A luz veio a partir da leitura do livro "Teatro para crianças: Problemáticas e solucio-Lunáticas", de Henrique Sitchin, da Companhia Truks, que ganhei do autor, no Último FESTIVALE, quando participei duma oficina de teatro de animação que ele ministrou. O livro refere-se ao universo infantil, no qual, através da brincadeira livre, as crianças expressam o que sentem do mundo ao redor. Vale a pena ter em conta a importância que tem o afeto na vida das pessoas, independente da idade ou condição social, já que nós "sentimos" de acordo como nos tratam.

A pesar da crise de todo tipo que a gente está passando, o palhaço serve para resgatar á criança que mora dentro de nós e tornar a vida mais leve e saudável.


http://mimicoandarilho.blogspot.com.br/p/intervencoes.html

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Festivale 2016 - Teatro e Democracia

De 02 a 11 de Setembro aconteceu o 31° Festivale, que teve como tema central "Teatro e Democracia". Não tem como se pensar em teatro sem democracia, porque ele expressa o anseio coletivo..

No Festivale desse ano, o que a gente viu foram espetáculos que abordam tanto a época das ditaduras militares, onde existiu o autoritarismo, a tortura e o desaparecimento de pessoas, quanto outros que reivindicam os direitos das mulheres, passando por um que mostra o tipico brasileiro malandro chamado "Malasartes", Teatro de Cordel e vários Quixotes, como o da Cia Circo Navegador de São Sebastião. Além de oficinas, palestras, intervenções, etc. Fechando com o espetáculo Galileu Galilei, protagonizado pela atriz Denise Fraga.

https://www.facebook.com/groups/1290244467654792/?fref=ts

A minha participação no Festival deu-se em vários dias de intervenções em lugares estratégicos da cidade e teve como intuito levar tanto a alegria do palhaço popular para as ruas quanto divulgar o evento. Se for pela quantidade de público presente aos espetáculos, acho que cumpri bem o meu papel.

"Teatro e democracia" para mim é assim mesmo, conseguir "brincar" com as pessoas sem ter sido programado, intervir, pegar o gato antes do pulo. Atingir o espontâneo antes do pensamento. Quebrar o gelo com a ingenuidade e a picardia do palhaço. Nem sempre dá certo, porque o improviso é feito de momentos, assim como a vida, mas, apesar do risco, não deixa de ter sua função social. Em todo lugar onde apresento minha "Ação Brincante" alguma pessoa vem falar comigo para dizer que já me assistiu em outra cidade e achou legal. É por mim e pelo público, especialmente pelas crianças, que continuo insistindo nesse mieu labor de "Mímico Andarilho"...

("Aquele que no chão ficar terá que abandonar a cavalaria andante e ficar com a vida pacata dos que não se arriscam pelos seus ideais" - Quixotes - Cia Circo Navegador)

"Quixotes" - Cia Circo Navegador - São Sebastião - SP (Foto de Paulo Amaral)

-"O palhaço representa a gente, por exemplo, quando fica detendo o trânsito no meio da rua e acaba inclusive parando até os próprios agentes de trânsito", me disse um músico, depois da minha apresentação espontânea no Encontro Literário realizado em São Francisco Xavier, no meio desse ano.

https://www.youtube.com/results?search_query=mimico+andarilho+6

Ato democrático ao meu favor, por exemplo, foi quando todo mundo saiu na minha defesa em Campos do Jordão (Público, Garçons, Gerentes de Restaurantes, Vendedores de lotaria, Seguranças das lojas, etc), quando a polícia quis me levar á delegacia porque uma mulher tinha feito um Boletim de Ocorrência sentindo-se ofendida ante minha brincadeira...

Em São José dos Campos, faz poucos meses atrás, presenciei e fiz parte de um ato totalmente democrático, quando a classe artística se mobilizou e encheu a galeria da câmera dos vereadores, para impedir que a lei que implantou o plano municipal de cultura seja assinada com uma série de emendas que mudariam totalmente o sentido de liberdade do texto. Os vereadores, sentindo-se pressionados tiveram que voltar atrás e assinaram o texto original.

Quem faz a democracia são as pessoas, independentemente de partido político ou de religião, quando expressam as suas necessidades e acabam juntando-se a outras pessoas para levantar bandeiras de reivindicação.
Falar em Democracia é falar nos direitos dos cidadãos em geral quanto à moradia, educação, saúde, aposentadoria, etc. .

Foto de Paulo Amaral,. Ao fundo, Intervenção chamada "Cegos", do Núcleo Coletivo, do Laboratório de artes performáticas da USP
https://www.facebook.com/fotografopauloamaral/posts/1113309192084474






quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Viagem ao Noroeste do Estado de São Paulo. (Birigui - Araçatuba - Barretos)

Começando de trás para frente. 
Ida a Barretos

Do lado esquerdo, tudo dinheiro. Do lado direito, dinheiro e mais dinheiro, comentava o jovem que viajou ao meu lado no ônibus circular que faz o percurso desde a cidade de São José do Rio Preto até a cidade de Barretos e vice - versa. Plantações de cana. Hoje os fazendeiros só plantam cana, já que é lucro na certa. Outra pessoa me explicou que só pequenos produtores tem plantações de outro tipo, inclusive cultivam laranja, que antigamente acostumava reinar pela região. Sou "Piloto particular", que é uma profissão que dá dinheiro, me contou o jovem na viagem. Você pode fazer diferentes cursos de pilotagem e cada um habilita para um tipo de serviço. Aqui no campo, tem muitos pilotos de pequenos aviões monomotor que são contratados para jogar "defensores agrícolas" nas plantações de cana. Ele disse que vários amigos dele sofreram graves acidentes por causa da manutenção precária dos aviões.
Dinheiro e mais dinheiro. Em Barretos, é só você entrar no estádio onde é realizado o rodeio e assistir aquele "circo" todo para sentir-se pequeno ante tanta opulência do capital. Tudo é marca e patrocínio, desde o trator que passeia na arena, os outdoors em volta do estádio ou a grande tela que transmite em tempo real ao rodeio. - É a cultura deles, me disse um Índio da tribo dos Pataxós que todo ano está no "Rancho do Peãozinho" vestido a carácter, ensinando sobre a cultura indígena e vendendo produtos "autóctones" para as crianças.

Tudo é compra e venda. Cultura Country. Me fez lembrar os filmes do faroeste e os super heróis dos seriados Norte Americanos. Fiquei apavorado com o comercial que mostra o "Objetivo do Herói Peão", que é participar do "The América", que reúne "Cowboys" de todo o mundo no epicentro que fica nos Estados Unidos. Mais apavorado fiquei com o final do comercial e o hasteamento da bandeira americana. Ai meu Deus, que medo. Fiquei pensando, sempre fomos colônia, seja dos Espanhóis ou Portugueses, dos Ingleses ou dos Americanos. No Brasil, inclusive, a tal divida externa já existia desde a época do Império é o único pais da região que ameaçou ter uma real independência econômica na época, o Paraguai, foi massacrado pela tal "Tríplice Aliança" a mando dos Ingleses, numa dos maiores genocídios da história.

Barulho e mais barulho, acabei compreendendo qual é o motivo de, no meu bairro, o pessoal ficar ouvindo aquelas músicas de duplas sertanejas e etc. naquele volume altíssimo nos seus carros... Acho que eles são simpatizantes de rodeio (rs)... Aquelas letras e melodias fáceis e contagiantes... Bom, cada um tem seu gosto...

Barretos recebe gente do Brasil todo, seja para curtir a festa ou a trabalho. - "Aqui é um lugar para se ganhar ou para se gastar dinheiro", me disse o "Paraná" que é um senhor que todo ano está na festa para trabalhar com seu "Touro mecânico".

Mas como sempre há a exceção á regra, é  bom ressaltar que, apesar do clima de "Disney Word Caipira" reinante no Parque do Peão, existe uma turma que ainda se preocupa em preservar as raízes tanto da cultura caipira, seja a Moda de Viola, a Catira, ou a Chula, por exemplo, como de outras expressões da cultura popular brasileira, como o Forró Pé de Serra, o samba raiz e até mesmo samba-rock brasileiro. Trata-se do pessoal da AGCIP que tem como objetivo ser uma "Parceria Caipira Fomentando a Cultura no Interior Paulista". Pelo palco "Culturando - Folclore em Cena" vi várias atrações, tanto de artistas contratados via edital como de pessoas da comunidade apresentando suas atividades. Lá assisti, por exemplo, a uma comovente apresentação de dança realizada por deficientes visuais, onde a instrutora guiava os quase cegos no palco batendo com um bastão no chão. O mesmo pessoal da AGCIP realiza atividades dentro de numa barraca montada dentro do "Rancho do Peãozinho", onde fiquei alojado, dando um tom "cultural" diferente a festa.

Palco da AGFIP na festa do Peão de Barretos

Eu fiquei lá, argentino, brincando com minha burrinha pernambucana, no Rancho do Peãozinho, dentro da Festa do Peão Boiadeiro de Barretos. Agradeço pela experiência a Renata, coordenadora do rancho, que me contratou, dando total liberdade para eu "brincar" do meu jeito.

Site da AGCIP
http://www.agcip.org.br/videos/festival-folclore-em-cena-etapa-barretos/

Birigui e Araçatuba:

De uma forma simples, sem a bicicleta, carregando os objetos do espetáculo mais a burrinha, figurinos e roupas pessoais para uma semana na estrada,  numa viagem de ônibus desde São José dos Campos até Birigui, com escala em São José do Rio Preto, no auge das Olimpíadas no Rio de Janeiro. Peguei um final de semana de frente fria com forte vento e chuva. A programação do SESC-Birigui incluía uma apresentação do espetáculo Sábado de noite na praça de Birigui e outra na tarde do Domingo em Araçatuba. Em Birigui não rolou em espaço aberto por causa do clima e a gente tentou apresentar na Biblioteca Pública, mas sem sucesso, já que coincidiu com a hora do jogo do Brasil na final do futebol masculino das olimpíadas, com prorrogação, pênaltis, etc. além da forte chuva, o que acaba inibindo as pessoas a sair de casa. No Domingo tinha vários fatores para a apresentação não ter dado certo. O forte vento frio ao qual as pessoas de Araçatuba não estão acostumadas, o fato de já ser final da tarde, e as pessoas já estarem se preparando para irem embora, a instalação ás pressas do som, o cabide com cruzamento de rua que não parava em pé, a insegurança do uso da flauta com microfone ret 7, etc.
Foi realmente bom apesar de todas das dificuldades. Comecei o espetáculo ao ritmo do jazz, de forma espontânea, sem prévio anúncio, interagindo com quem encontrava no caminho, percorrendo os quatro cantos da praça, enquanto o público assistia as situações inusitadas que rolavam. Depois me coloquei na frente do cruzamento da "Rua da Tristeza" com o da Rua da Alegria e narrei a história de cabo a rabo e, no final, agradeci, me apresentei e "brinquei" de burrinha, um dia antes do dia do folclore, que é celebrado no dia 22 de Agosto.

Foto de Amanda Bonetto (SESC - Birigui)
Mais fotos de apresentação em Araçatuba:
https://www.facebook.com/sescbirigui/photos/a.1068168933276261.1073741951.135594836533680/1068169073276247/?type=3&theater

De volta ao hotel, para fechar com chave de ouro o Domingo, assisti ao programa Café Filosófico da TV Cultura, que tinha como tema central a obra do Dom Quixote de la Mancha de Miguel de Cervantes Saavedra. A palestrante, Janice Theodoro, trouxe a imagem do Dom Quixote é o que ela representa para nós na sociedade contemporânea.
Construir uma sociedade justa. Ser crítico consigo mesmo. Obedecer a própria consciência. Aceitar que os "moinhos de vento" estão dentro da gente, referindo-se ao "sonho". Ser, de dentro para fora e não de fora para dentro. Essas foram algumas dos exemplos que foram extraídos da obra, tomando em conta que hoje em dia se dá mais importância ao momento presente, as virtudes do corpo em detrimento das virtudes do espírito. - "São os bens materiais que qualificam o indivíduo, tal vez por isso exista tanta corrupção", ela diz. Finalmente a palestrante conclui: - "A gente precisa desconstruir para ver direito as coisas, desconfiar de si mesmo. Vale a pena rir da gente para dar um passo a frente"...

Link Programa "Café Filosófico"
https://www.youtube.com/watch?v=WpswOwH5Uow

Para mim não é diferente quando vou "brincar" livremente nas ruas conseguindo meus ganhos na base de rodar o chapéu de quando me apresento dentro da programação um SESC. por exemplo. Inclusive o tema do espetáculo é esse. Acabo rindo de mim mesmo, já que faço uma paródia da minha luta pela sobrevivência através do teatro de rua

















quarta-feira, 27 de julho de 2016

Inter Ação

O objetivo é mobilizar, dialogar, interagir. A proposta é o jogo livre, o improviso em contato direto com as pessoas seja qual for o lugar da apresentação, rua, local de trabalho, dentro da escola ou até mesmo numa sala de espetáculos.

“Brincantes”, assim são chamados os personagens dos folguedos populares, os repentistas ou os artistas de teatro de mamulengo.

“Arte ingênua”, porque nasce de um desejo intuitivo e preserva sua característica rústica, o que a torna “popular”.

A arte popular tem uma relação direta com a linguagem da brincadeira livre da criança, pela sua inocência e porque é realizada por impulso, sem tomar em conta aspetos meramente técnicos. Nas artes plásticas temos o exemplo da pintura chamada “Naif” (ingênua), das esculturas das figureiras ou da construção dos bonecões do carnaval.

No meu trabalho existe um estudo de elementos técnicos de mímica, de palhaço, de consciência corporal, de espaço cênico como um todo, etc. Mas a procura é pela linguagem mais pura da criança, o “Homo Ludens”, a criação espontânea.  

Quando vou para rua, “brincar” livremente com as pessoas, o meu desejo é o de mudar o ritmo natural das coisas, melhorando o estado de ânimo, criando autoestima, expondo de uma forma positiva. 

O curioso é que, mesmo estando na rua, o trabalho “acontece” melhor de forma intimista, olho no olho, para grupos menores, talvez porque esta forma facilite a interação.

Estou com dois tipos de atividades com as quais pretendo viajar por diferentes regiões e cidades:

A primeira é a "Ação Brincante", que é a brincadeira livre, na qual uso a mímica, a bicicleta ou a “burrinha”. 

A segunda é a apresentação do espetáculo “As Peripécias do Mímico Andarilho”
A ideia é que, na narração da história, que é feita através de gestos, não se perca a característica do improviso e do contato com a plateia o tempo inteiro. Para isso coloco pessoas no palco, brinco com o inesperado, saio e entro na história, etc. Dando, às vezes, mais importância para o jogo espontâneo do que para a própria história.

http://mimicoandarilho.blogspot.com.br/p/espetaculos.html


“O Mímico Andarilho”, um personagem ingênuo, que resgata o bom trato entre as pessoas e traz uma mensagem sobre a importância de se preservar o Meio Ambiente em que vivemos, valorizando a cultura popular e fortalecendo a autoestima do cidadão.

Foto de Ricardo de Paula





quarta-feira, 6 de julho de 2016

"Terra em Transe"

O legal do último final de semana foi ter assistido ao filme “Terra em Transe”, do Diretor Glauber Rocha, na sede do “AME Campos” (Associação de Amigos de Campos do Jordão), como parte da programação do “Cine Clube Araucária”, coordenado pelo Senhor Cervantes.

Localizada numa bonita casa antiga, ficamos na sala, sentados em confortáveis poltronas, tomando um excelente vinho chileno, o Secretário de Cultura do Município, uma senhora jornalista de uma conhecida revista acompanhada por seu marido, os produtores do evento e mais umas poucas pessoas, inclusive eu.

O filme, digitalizado, foi projetado num telão que ocupava grande parte de uma das paredes, dando o clima de um cinema.

"Terra em transe" é realmente uma “paulada” na cabeça, forte e totalmente atual. Devido a sua linguagem simbólica, me vi na obrigação de recorrer a uma análise feita por estudantes universitários para poder entender melhor a trama.

Lançado em 1967, o filme faz parte do movimento “Cinema Novo”, que tinha o intuito de despertar nos espectadores uma consciência crítica sobre os problemas sociais e políticos que atingiam o país na época. Destacam-se, como características da narrativa, a descontinuidade, da qual a quebra da narrativa linear impõe ao espectador a reflexão sobre o que está sendo exposto; o dinamismo, o excesso de movimentos de câmera e cortes abruptos de cenas; e a desarmonia, ou seja, há um desconforto no espectador diante de uma história “confusa”, que não tem qualquer pretensão de orientar ou controlar a interpretação da obra. O engajamento para combater a miséria e a desigualdade, o caráter paternal que anestesia as mazelas da pobreza, a indiferença passiva que está alienada de tais elementos, a repugnância que desencadeia toda esta situação, todos diretamente relacionados com o cotidiano pobre, dependentes dos votos e da ignorância das massas. A questão agrária, colocada por Glauber, pano de fundo de toda a questão da terra no Brasil, parece se apropriar de certos elementos do passado para construir sua representação. A alusão à formação das Ligas Camponesas no nordeste, que no governo de João Goulart teve os seus ensaios com a formação da Superintendência da Reforma Agrária (SUPRA). No filme, o cineasta buscou representar a questão da violência no campo, deslocando sua crítica para a incapacidade das massas de organização política e suas dependências paternalistas de setores ligados ao poder.
Porfírio Diaz, como seu correspondente histórico, simboliza a alegoria do político corrupto e oportunista, que muda de lado conforme o vento, e perpetua-se no poder com o auxílio dos setores mais reacionários, com o sacrifício da população mais carente e despossuida. Felipe Viera, político de "Alecrim", província periférica de “El Dorado”, é porta voz da reação ao jogo político simbolizado por Porfírio Diaz. Têm um tom paternalista e é um demagogo de grande influência nas massas. Mas Vieira, ao tornar-se governador de Alecrim, mostra sua fraqueza de caráter, escondendo-se atrás de um discurso conciliador com as forças reacionárias, abandonando a aliança que tinha construído com a população, especialmente com os camponeses.


Figura fortíssima a de Paulo Autran, como Porfírio Diaz, que, empunhando uma bandeira numa mão e um crucifixo na outra, conclama olhando para a câmera: - “A sociedade brasileira é feita de classes! A que classe você pertence, hein? A que classe?(...)”


Paulo Autran  em "Terra em transe"




E lá estou eu, ingênuo, com meu palhaço no meio da rua, em Campos do Jordão, tentando alegrar a massa, acreditando no meu Brasil amado. E lá está o grande senhor Cervantes, distribuindo consciência e cultura, fazendo política entre os ricos e os pobres de espírito. Para mim, seu “Cervantes”, os moinhos de vento ficaram realmente indestrutíveis e está cada dia mais difícil enfrentá-los, mas, mesmo assim, continuo lutando...


quarta-feira, 18 de maio de 2016

Atividade no “Ocupa Atibaia” 2016 da “Incubadora de Artistas”

Nesse último final de semana fiz a minha participação no terceiro “Ocupa Atibaia”, projeto idealizado pela “Incubadora de Artistas”, que premia aproximadamente dez trabalhos que são realizados no transcurso do ano. O bacana é que o objetivo da atividade é a interferência urbana, o seja, a arte de rua, mesmo. Vai haver grafite, Hip Hop misturado com samba, Pintura em Muro, Mosaico, etc. sendo que várias dessas atividades acontecem nos bairros da periferia.

Minha participação consistiu na realização do “Ação Brincante”, no Sábado e a apresentação do espetáculo “As Peripécias do Mímico Andarilho”, no Domingo, em praça pública, na área central da cidade.

O mais bacana foram às intervenções do Sábado, onde sai pedalando minha bicicleta brincando com tudo o que achava pela frente, num percurso indicado pelos organizadores, que me acompanharam e registraram a atividade. O contato com as pessoas simples que achei nas praças, no ponto de ônibus urbano da rodoviária ou nas ruas do centro foi bem espontâneo e agradável, tanto para elas quanto para mim.

Foto de Ricardo De Paula





 A Incubadora de Artistas funciona como uma galeria de arte que expõe trabalhos de artistas da região e de outros lugares. A exposição é visitada por alunos de escolas e público em geral e se renova continuamente. Outras atividades organizadas pela Incubadora são o Festival de Nanometragem, o Festival “Cobertor de orelha” e a “Festa do Saci”.


Em Atibaia conservam-se várias construções antigas, como a do hotel em que fiquei hospedado, que foi construído em 1932, e que, segundo Vitor, um dos sócios da Incubadora, já abrigou artistas do Movimento Modernista.

Atibaia, cujo nome de origem Tupi aparentemente faz referencia a água é um lugar pacato, de uns 120.000 habitantes, onde as pessoas que moram na grande cidade vão descansar ou ter um calmo lazer. Lá tem uma comunidade japonesa forte e acontece a Festa das Flores e Morangos.


Lá eu brinquei de arte popular e gostei...

"Quanto mais alto o cargo, maior o rombo" -
Arte urbana na frente de uma construção tombada no centro de Atibaia


sexta-feira, 6 de maio de 2016

Nas ruas da "Minha Cidade"

Aceitar ser “Palhaço de porta de loja” por dois dias seguidos, pode ser visto como um sinal de que a situação não está nada fácil, mas, por outro lado, o bom do fato é que me coloca em contato com o povão em geral, que transita cotidianamente ás ruas da cidade.

Num cenário de “compra-vende” ao qual já estou acostumado, em Campos do Jordão, vários promotores ficam nas calçadas das lojas oferecendo seus produtos. Minha sorte foi de que a loja onde eu estava era a última antes da esquina, ficando, portanto, perto do sinal e da faixa de pedestres e, ainda por cima, tendo o privilégio de ter do outro lado da rua uma grande calçada sem lojas que pertence ao antigo prédio da Câmara Municipal.

Meu objetivo foi o de usar o espaço como um todo, aproveitando tanto calçada da frente da loja, como a do outro lado da rua, assim como também o cruzamento, e a própria rua e os veículos automotivos, as bicicletas e as pessoas que transitam pela mesma.

Uma sopa de gente de todas as idades e tribos, de largos sorrisos e de muitas dores.

Meu ponto de chegada e de partida era à frente da loja que me contratou, onde ficam os promotores anunciando para os transeuntes “Vamos fazer o teste da visão gratuito!”, tentando convencê-los a entrar.

Usei como trilha sonora o som de jazz de rua de sempre, utilizando a minha caixinha amplificada presa á cintura, o que permite locomover-me junto ao som. No primeiro dia levei a bicicleta antiga e no segundo a “Burrinha". Nos dois toquei algumas músicas que sei de cor na minha flauta transversal.

Realizei o trabalho de várias formas, de acordo com a necessidade. Umas vezes fiquei apenas parado na frente da loja, brincando, fazendo palhaçadas com pequenos gestos faciais. Em outras imitei as pessoas que passavam, tanto na calçada da loja, como as que circulavam do outro lado da rua. Com a burrinha, sai pulando ao som de Jackson do Pandeiro por tudo quanto lugar. Com a flauta toquei várias músicas, mas as que funcionaram melhor foram o “Carinhoso” de Pixinguinha e um forró que toco enquanto estou de burrinha.

Ficar na rua, exposto, na cidade do interior onde você mora, é um barato. Acabei cruzando um monte de gente que conheço ou me conhece, sejam amigos, conhecidos, amigos do meu filho, artistas, produtores culturais, etc.

O mais importante do trabalho é o contato com as pessoas no geral, seja na atenção dispensada a alguém mais velho que vem contar alguma anedota, ou simplesmente mantendo a postura pacífica, alegre e desconsertante do palhaço, figura com a qual, de alguma forma, todos se identificam.

Encontrei gente perdida, gente achada, de todas as idades, de todas as cores, de todas as alegrias, de todas as dores. De todo gênero. Vários tipos de amores. Com as crianças pequenas, é claro, a mais pura magia...

O momento mais legal de todos foi quando uma criança de uns oito anos de idade veio tirar uma foto comigo para comemorar o sucesso do seu transplante de medula e a cura da sua leucemia.


Junto a meu amigo e músico Maciel Junior

Definitivamente, não sou nada estranho para o público de São José dos Campos, já que levo mais de quatorze anos por aqui e já fiz infinidades de coisas, desde apresentar-me em dezenas de escolas e eventos oficiais, até “brincar” espontaneamente nos bares da cidade, sempre levando a alegria do palhaço junto a linguagem da mímica e da cultura popular...