quarta-feira, 22 de julho de 2026

Relaxa a mente...

 

São Paulo,

Inverno,

Vento frio,

Nas estações de trem e metrô,

Gente a ir e vir.

Passageiros que entram empurrando

Aqueles que querem sair.

 



Nos vagões apinhados

Raras gentilezas

Cada um no seu quadrado

Quadrado retangular

Chamado de celular

                                                                                          

No meio da indiferença,

Que predomina em geral                                      

Vejo pessoas correndo

Atrás do vil metal

 

- Aceito cartão e pix.

Vamos lá, freguesia,

Dois fones de ouvido por vinte pratas,

Antes que o rapa pegue a mercadoria.

 

 

- Seis pares de meias por dez reais                                

- Achei emprego e não recebi

- Vendo balas porque preciso

- O segurança não me quer aqui


“Relaxamente” é o nome da atividade da qual participei na estação Osasco da CPTM, contratado pela unidade do SESC daquela cidade nos dias 11, 18 e 25 de junho. A minha parte, como mímico, consistia em interagir com o público que circulava pela estação, chamando a atenção e convidando-o a participar de uma experiência de meditação e aromaterapia ministrada por dois profissionais, na qual as pessoas deitadas em tapumes, ficavam de tapa-olhos e com fones de ouvido e eram conduzidas por meio de áudio descrição a uma viagem de doze minutos que os afastava da correria do dia a dia.
A meditação era tão boa que eu, após tê-la experimentado, consegui vencer meu medo e “brincar” com as pessoas como de costume.



 

Na estação de trem

Independentemente da idade

Gente correndo, apressada

Não presta atenção em nada           

 

No entanto

Lá no meio

Há um palhaço singelo

Que com seu olhar

Tenta prender a atenção dos transeuntes

Competindo com o celular

 

 

Passam trabalhadores, estudantes,

Donas de casa,

Aposentados, mendigos,

E cachorros vira-latas                                    

E o palhaço a todos

Um sorriso, ele desata...


Fotos de Tatiane Silvestroni

domingo, 3 de maio de 2026

O cachorro feito de bexiga

 

Das marcas de bexiga que há no mercado, já usei quase todas no ímpeto de aprender esculturas com balões, o que tem funcionado para criar vínculo com as pessoas, especialmente as crianças, nas minhas intervenções de rua como mímico em Campos do Jordão, onde fico “brincando” em diferentes locais na parte interna e externa do Boulevard Geneve, que tem apoiado minha atividade por lá.

Realmente não tenho tido muita sorte quanto à qualidade dos balões, já que estouram com facilidade.

Como será que aquele gringo do YouTube consegue esculpir uma flor de seis pétalas com a bexiga sem ela estourar? Com certeza, a bexiga de lá de fora é fabricada com um látex de qualidade superior...

Estou descobrindo uma série de mímicas que podem ser feitas enquanto tento criar formas com balões, e isso dá lenha para as palhaçadas. Teve uma vez que fiquei um tempão tentando esculpir alguma coisa sem êxito, enquanto duas pessoas — pai e filho adolescente — riam da minha cara o tempo todo... No fim, chegaram perto de mim, me parabenizaram e ainda me deram uma grana...

Entre as formas mais comuns, a de coração funciona como moldura para as pessoas tirarem fotos com cara de apaixonadas.

Recebi pedidos dos mais excêntricos vindo das crianças menores de cinco anos, tipo “faz um elefante”. Vejo os profissionais do gênero criarem formas tão complicadas que pode até dar para esculpir um elefante. Ou então, “faz uma cobra”, que é simplesmente encher o balão e amarrá-lo.

Certa vez, chega uma menina e pede para eu "fazer" um cachorro para ela. Depois de muito esforço, consigo esculpir uma coisa parecida com o animalzinho e a garotinha vai embora feliz. Na sequência aparece Miguel, um menino de cerca de quatro anos, tentado que só, correndo no meio do povo, daqui para lá, com o pai desesperado na cola dele, que, ao chegar perto de mim, pede para lhe entregar uma bexiga cheia para ele esculpir a sua versão de cachorro. Retorce daqui, retorce de lá, faz um círculo com um nó no meio e pronto. Entrega a bexiga para outro menino da sua idade, que a recebe como se fosse o cachorro mais verdadeiro do mundo.

É isso mesmo, a arte do improviso é abstrata e flui por si própria, assim como a imaginação da criança. O balão é só mais um ativador de sonhos...