sábado, 10 de outubro de 2026

Periferia, realidade ardida

 

.Artur precisa ficar incomodando algum companheirinho de sala de aula, ocupando o seu tempo e gastando a energia que não consegue controlar. Thales foge dos arrebates deste que não o deixa concentrar na sua tarefa de desenho. Artur ri, achando graça, assim como o gato brinca com o passarinho que catou no ar antes de depená-lo. Prazer mórbido à parte, Artur atua por impulso, batendo numa criança ou empurrando outra.

Numa hora dá um tapa na nuca de Maria, em outra joga uma canetinha hidrográfica nas costas de Luiza e assim vai...

Chamo a atenção dele: — Artur, cadê o seu desenho? — Está todo mundo desenhando, só você é que não está. Ao que responde num gesto de encolher de ombros. É mais forte do que ele...

Era a segunda aula em que eu substituía a professora de desenho, que abandonou a turma de terceiro ano do período integral de escola municipal de bairro da periferia. Por qual motivo? Sei lá...

Propus que desenhassem sentados, cada um no seu lugar, após ter tentado realizar atividade corporal sem êxito, justamente por causa do bate, empurra, puxa e por aí vai...

Resolvi passar vídeos de animações sobre preservação ambiental direto do YouTube na louça da sala, aproveitando a estrutura escolar para depois pedir para as crianças desenharem sobre o que entenderam.

Parece que, inconscientemente, a turminha pedia por uma tarefa que os mantenha concentrados, cada um na sua. Só Artur é que não consegue parar...

Coloco Artur para ser o meu ajudante músico, batendo tambor junto comigo enquanto passo vídeos de coral de crianças indígenas da tribo Guarani, e ele fica feliz e tal....

O desenho funciona na segunda aula em que fui à escola. Na terceira, Artur faltou. Na quarta, a criançada estava encapetada, todo mundo gritando e inquieto, assim como Artur...

Propus o “Jogo do círculo do silêncio”, o qual aprendi nas minhas passagens pelas escolas, que consiste em um círculo desenhado na lousa, dentro do qual cada criança deve escrever o seu nome e o de uma outra criança da turma, que tem que levantar, ir até a lousa e escrever o nome de uma outra. E assim vai...

O jogo foi ficando interessante a partir do momento em que uma menina escreveu o nome de uma outra e agregou entre parênteses “amiga favorita”. E assim, por meio das escolhas, foram aparecendo os vínculos. Fulana, que é amiga de Beltrana, que é amiga de Sicrana. Só que do Artur ninguém é...

Artur levantou-se e, indo até a lousa, pediu um por um para cada criança lembrar do nome dele, e nada...

Até que um menino atendeu o pedido ante os protestos da sala.

Artur parece aquele líder bandido ao qual o pessoal obedece por medo...

Fico me perguntando: será que a pessoa nasce bandida ou é a sociedade que a transforma em tal? Sei lá...

Artur, uma criança de nove anos, nesse dia foi “denunciada” por duas meninas que vieram até mim direto da sala da coordenadora com um papel para eu assinar dizendo que Artur bateu, puxou e não sei que mais...

A coordenadora meio que me obrigou a registrar a denúncia, dizendo: “Aqui é assim” e eu fiquei tipo “Assado...”.

Na hora da saída, em que os pais vêm buscar os meninos na sala, a mãe do Artur bateu nele sem perguntar nada, dizendo que apanha todo dia, mas que de nada adianta.

Argumentei, tentando fazê-la entender, que não é por aí, que batendo não se resolve nada. Ao qual ela respondeu que é melhor apanhar em casa do que na rua...

Para as crianças que presenciaram a cena, eu confessei que me sentia “passado” com a situação, ao qual elas responderam que era para falar isso para o pai de uma, a mãe ou a avó de outra, já que a maioria delas apanha...

Artur é criança com TDAH. Acha ignorância. Sei lá...

 

 



 

 

quarta-feira, 22 de julho de 2026

Relaxa a mente...

 

São Paulo,

Inverno,

Vento frio,

Nas estações de trem e metrô,

Gente a ir e vir.

Passageiros que entram empurrando

Aqueles que querem sair.

 



Nos vagões apinhados

Raras gentilezas

Cada um no seu quadrado

Quadrado retangular

Chamado de celular

                                                                                          

No meio da indiferença,

Que predomina em geral                                      

Vejo pessoas correndo

Atrás do vil metal

 

- Aceito cartão e pix.

Vamos lá, freguesia,

Dois fones de ouvido por vinte pratas,

Antes que o rapa pegue a mercadoria.

 

 

- Seis pares de meias por dez reais                                

- Achei emprego e não recebi

- Vendo balas porque preciso

- O segurança não me quer aqui


“Relaxamente” é o nome da atividade da qual participei na estação Osasco da CPTM, contratado pela unidade do SESC daquela cidade nos dias 11, 18 e 25 de junho. A minha parte, como mímico, consistia em interagir com o público que circulava pela estação, chamando a atenção e convidando-o a participar de uma experiência de meditação e aromaterapia ministrada por dois profissionais, na qual as pessoas deitadas em tapumes, ficavam de tapa-olhos e com fones de ouvido e eram conduzidas por meio de áudio descrição a uma viagem de doze minutos que os afastava da correria do dia a dia.
A meditação era tão boa que eu, após tê-la experimentado, consegui vencer meu medo e “brincar” com as pessoas como de costume.



 

Na estação de trem

Independentemente da idade

Gente correndo, apressada

Não presta atenção em nada           

 

No entanto

Lá no meio

Há um palhaço singelo

Que com seu olhar

Tenta prender a atenção dos transeuntes

Competindo com o celular

 

 

Passam trabalhadores, estudantes,

Donas de casa,

Aposentados, mendigos,

E cachorros vira-latas                                    

E o palhaço a todos

Um sorriso, ele desata...


Fotos de Tatiane Silvestroni

domingo, 3 de maio de 2026

O cachorro feito de bexiga

 

Das marcas de bexiga que há no mercado, já usei quase todas no ímpeto de aprender esculturas com balões, o que tem funcionado para criar vínculo com as pessoas, especialmente as crianças, nas minhas intervenções de rua como mímico em Campos do Jordão, onde fico “brincando” em diferentes locais na parte interna e externa do Boulevard Geneve, que tem apoiado minha atividade por lá.

Realmente não tenho tido muita sorte quanto à qualidade dos balões, já que estouram com facilidade.

Como será que aquele gringo do YouTube consegue esculpir uma flor de seis pétalas com a bexiga sem ela estourar? Com certeza, a bexiga de lá de fora é fabricada com um látex de qualidade superior...

Estou descobrindo uma série de mímicas que podem ser feitas enquanto tento criar formas com balões, e isso dá lenha para as palhaçadas. Teve uma vez que fiquei um tempão tentando esculpir alguma coisa sem êxito, enquanto duas pessoas — pai e filho adolescente — riam da minha cara o tempo todo... No fim, chegaram perto de mim, me parabenizaram e ainda me deram uma grana...

Entre as formas mais comuns, a de coração funciona como moldura para as pessoas tirarem fotos com cara de apaixonadas.

Recebi pedidos dos mais excêntricos vindo das crianças menores de cinco anos, tipo “faz um elefante”. Vejo os profissionais do gênero criarem formas tão complicadas que pode até dar para esculpir um elefante. Ou então, “faz uma cobra”, que é simplesmente encher o balão e amarrá-lo.

Certa vez, chega uma menina e pede para eu "fazer" um cachorro para ela. Depois de muito esforço, consigo esculpir uma coisa parecida com o animalzinho e a garotinha vai embora feliz. Na sequência aparece Miguel, um menino de cerca de quatro anos, tentado que só, correndo no meio do povo, daqui para lá, com o pai desesperado na cola dele, que, ao chegar perto de mim, pede para lhe entregar uma bexiga cheia para ele esculpir a sua versão de cachorro. Retorce daqui, retorce de lá, faz um círculo com um nó no meio e pronto. Entrega a bexiga para outro menino da sua idade, que a recebe como se fosse o cachorro mais verdadeiro do mundo.

É isso mesmo, a arte do improviso é abstrata e flui por si própria, assim como a imaginação da criança. O balão é só mais um ativador de sonhos...

 



domingo, 23 de novembro de 2025

Através das lentes...

 

Gustavo fica atrás de duas lentes daquelas tipo fundo de garrafa observando tudo na defensiva. Ele responde “Não!” na frente de qualquer situação ainda que seja do seu agrado. Soldado de si mesmo, seus óculos formam uma trincheira de onde atira nãos para todo lado. Gustavo, assim como as outras crianças da aula de teatro, faz do labirinto formado pelos pés das cadeiras da sala a sua casa, onde se protege do mundo lá fora. Cadeiras, lentes grossas e o seu direito de ser criança o mantêm a salvo dos adultos.

“Cinco minutos” é o código criado para ficar brincando no parquinho, antes da aula, enganando assim o professor de teatro, que faz o papel proposital de bobo enquanto cria um diálogo com a maior paciência tentando desvelar os mistérios que jazem por trás do comportamento dos meninos de hoje em dia afetados diretamente pelo convívio com a internet.

O preconceito continua existindo mesmo que supostamente haja uma maior tolerância na sociedade. Crianças de dez anos sexualizando tudo.

- Você gosta de futebol, Gustavo?

- Sim, eu gosto - ele responde -

- Joga em qual posição? – pergunta o professor -

- Goleiro - Ele disse -

- Você segura bem a bola? - Indaga inocentemente o professor -

- “Lá, ele” – ele responde –

E, ante o olhar desconcertado do professor, ele sugere procurar a resposta no Google.

"Lá ele" é uma expressão baiana usada principalmente para proteger-se de frases com duplo sentido sexual, funcionando como uma negação imediata e evasiva.

Gustavo, assim como as outras crianças, compara os adultos com as personagens que assiste no "Tralalero Tralalá", um meme popular italiano criado por Inteligência artificial, originado no TikTok, que apresenta uns personagens bizarros, como um tubarão de tênis, um crocodilo com cabeça de avião ou uma bailarina com uma xícara de cappuccino no lugar de cabeça.
O meme é apresentado por vídeos curtos com frases sem sentido que fazem parte de uma tendência de conteúdo digital repetitivo e viciante que as crianças acham o máximo.
O professor de teatro, por ser careca e ter olhos esbugalhados, passa a ser o "Tung Tung Tung Sahur", um boneco de madeira que carrega um taco.
A vantagem de dar aula de arte em escolas públicas municipais pelo convênio entre a Fundação Cultural e a Secretaria de Educação numa cidade moderna como São José dos Campos é que toda sala de aula possui um projetor onde se pode assistir às imagens do computador diretamente na lousa.
Com a briga entre professor e aluno pelo computador estabelecida, Gustavo chega primeiro ao comando digital e mostra para o professor o que as crianças gostam hoje em dia; vídeos engraçados criados por inteligência artificial onde, pelo geral, aparecem pessoas mais velhas, desdentadas, contrapostas por pessoas jovens onde acontecem piadas de mau gosto.
O professor, por ser pessoa idosa, acaba sendo retratado como uma dessas pessoas mais velhas.


A luta continua...


Sabendo que o código é o da trapaça, o professor traz para a sala de aula um livro com histórias de "Pedro Malasartes" o qual causa pouco efeito. Como contra-ataque, o professor instiga as crianças a lerem livros para não serem enganadas por memes de internet e terem senso crítico.


A grande descoberta...


Não é que o professor descobre que Gustavo, por trás das suas lentes, adora cinema assim como ele?
E é através do cinema mudo que o professor consegue levar as crianças para uma linguagem que eles desconhecem. No primeiro dia passa do Youtube "As Bicicletas de Belleville", um filme de animação expressionista canadense de 2003 de uma hora e vinte minutos de duração. Os olhos de Gustavo ficam ainda maiores através dos óculos.
No segundo dia vem a grande descoberta: "Buster Keaton". Ele é o próprio Pedro Malasartes, já que chega do nada e sem nada no bolso, faz um monte de trapaças e vai embora com a mocinha do filme. Tudo antigo: roupas, cenários, carros, etc. E, no final, o professor faz questão das crianças fazerem o cálculo da diferença entre 1922, ano do filme, com 2025.

No terceiro dia o professor consegue acessar o seu login do site Mubi do computador da escola e passar o filme mudo de animação “Meu amigo Robô” de uma hora e trinta e quatro minutos de duração para as crianças. Gustavo assiste a função sentado na primeira fileira da plateia/sala de aula.

Na história, ambientada na cidade de Manhatan dos anos 80, um cachorro cansado da solidão compra um robô com o qual estabelece uma estreita amizade.

Gustavo, ao perceber detrás das suas lentes que todas as personagens, menos o robô, são animais que se comportam como humanos, pergunta ao professor se os humanos ficam no zoológico da cidade...




domingo, 26 de maio de 2024

Água, essencial para vida.

 O menino Noha se sente indestrutível, assim como as personagens dos desenhos japoneses de Anime que ele assiste direto no notebook da sua mãe, quando está em casa, ou no celular do seu pai quando vai para a casa deste. Com nove anos, Noha se multiplica, crescendo um pouco mais a cada dia, mudando de tamanho e ganhando forças para se proteger das dores ocasionadas pelas brigas familiares. 

Ele passa muito tempo sozinho, brincando no seu mundo de fantasia, repetindo posturas de defesa das artes marciais que aprende com seus super-heróis preferidos. 

Noha adora hambúrguer e detesta ter que tomar o leite hiperadocicado servido no refeitório da escola quando se esquece de levar o seu próprio lanche.

Ele pensa: "Como se pode sair de tão confortável mundo para participar de uma turma do teatro?"

Que chato!

Pior é ter a obrigação de se comunicar com os outros quando o professor propõe exercícios grupais: “É conosco, Noha...”.

Ufa! 

No fim ele acaba cedendo e até gosta de fazer parte das representações ao final de cada aula. Às vezes falta, mas sempre acaba voltando.

Para a criança tudo é natural, portanto Noha nem se lembra da maravilhosa história que criou em que alienígenas vêm confiscar a água da Terra para levá-la para o planeta deles, mas acabam se arrependendo, deixando-a para os humanos tomarem conta dela.


domingo, 31 de dezembro de 2023

O Professor Substituto de Artes

 

No pátio, três meninas aguardando a hora passar sentadinhas em bancos de cimento assistindo ao jogo de pingue-pongue dos meninos maiores. Duas delas, de uns oito anos de idade, inseparáveis, e a outra, menor, sozinha.

O resto da criançada da escola foi no passeio ao zoológico e, quando o professor substituto chegou, acompanhado pelo guardinha, deparou-se com que sua aula do convênio entre as Secretarias de Educação e a Fundação Cultural, em SJC.-SP, pela primeira vez, terá que ser para um grupo de tão só três. Percebendo tamanho desafio, o responsável da escola, em tom sugestivo, tenta animá-lo dizendo-lhe: “Use a criatividade”.

Apavorado, o substituto olha para as crianças, se apresenta e depois pergunta: - “O que vamos fazer?”. Duas horas até os pais das meninas chegarem e ele ali, na frente de uma sala de aula, para cobrir um professor de Jazz realizando uma “vivência musical”. Como formar um bloco de samba somente com três alunas?

Recostado na lousa ele enxerga um monte de carteiras vazias e, perto dele, sentadas na sua frente, duas meninas morenas inseparáveis parecendo irmãs e lá atrás uma menina menor, também morena, de olhar meigo e tímido, de rosto redondinho, quietinha e calada. Para piorar, da janela aberta ao fundo da sala, vem o barulho da rua movimentada.

O professor indica sua mochila dizendo que  carrega vários instrumentos de percussão nela;. o que não anima muito as meninas que propõem ir brincar no pátio. Ele insiste: - “Vamos apreender música juntos”. – “Alguém tem uma caneta hidrográfica para escrever na lousa?”.

Crianças carregam diferentes objetos nas suas mochilas, desde garrafinha de água, lanchinho, bola, corda de pular ou, como nesse caso, caneta hidrográfica para sorte de substituto. – “Muito bem, muito obrigado”. E agora em tom de palhaçada: - “Você que está no fundo, chega mais perto, por favor, que eu não posso gritar porque tenho problema nas cordas vocais”. A menina menorzinha obedece, senta perto e fica olhando de olho arregalado. Para uma melhor comunicação a estratégia do substituto tem sido encarnar uma personagem engraçada de desenho animado, experiência da sua profissão de palhaço improvisador de rua.

Desenhando na lousa Semínima, Colcheia e Semicolcheia ele pergunta para as crianças se sabem o que significam essas figuras e elas respondem que são “Notas Musicais”. Ai ele rabisca um pentagrama e a escala de Do, para depois puxar da sua mochila uma flauta doce e tocar as notas da escala. Depois disso uma das meninas traz da secretaria uma flauta doce para cada criança. Agora tudo vira barulheira. Nessa desorganização muito bem organizada o substituto tenta passar conceitos básicos de ritmo como tempo e contratempo.

E assim vai passando a hora entre sons, barulho e palhaçada.

Pelo geral as aulas nas escolas têm sido dessa forma: as crianças sentam em roda no chão, o cesto de lixo vira um surdo e depois da mochila vão surgindo os instrumentos para formar a batucada. Tamborim, ganzá e reco reco construídos com material reciclável, agogô, dois pedacinhos de cabo de vassoura para marcar o ritmo, entre outros. O substituto dirige o samba tocando pandeiro e apitando com apito na boca. Sempre tem uma criança que naturalmente sai sambando no meio da turma. Autores como Tom Jobim são nomeados ao referir-se a alguma música que eles conhecem como “Garota de Ipanema”.

Dessa vez, no final da aula, o substituto fica aliviado enquanto come bolachinhas e toma o suco oferecido  pela escola junto às três meninas para depois ser convidado por estas a brincar no pátio. Ele afirma: - “Eu não sou criança”. Sendo rebatido pelas meninas que respondem: - “Não é, mas parece...”.

 

 


 

 

 

sexta-feira, 4 de agosto de 2023

A menina e a coleira...

 

Dos animais de estimação que as pessoas criam, os mais comuns são os cachorros e os gatos. Os comércios que atendem um público com certo status social ou poder aquisitivo maior acabam tendo que se adaptar a essa realidade, permitindo a permanência dos animaizinhos integrantes da família dentro dos estabelecimentos. Estes, pelo geral, presos a coleiras ou, se forem menores, até dentro de carrinhos tipo de bebê.

Trabalhando na frente de restaurante com mesas na rua, na passagem de pessoas, em Campos do Jordão, costumo ver cenas das mais inusitadas, como as de cachorro vira-latas querendo brigar com cachorro de raça de família abastada.

Do que tenho presenciado, nada supera a experiência que tive um dia desses, na temporada de inverno, enquanto estava me apresentando. De repente, vejo uma criança linda, loira, de olhos azuis, de uns seis ou sete anos, presa a uma cólera, passeando com seu avô. Fiquei tão chocado que parei tudo e fui atrás deles. A menina parecia saudável, mas o seu olhar estava um pouco perdido e ela não se comunicava com o meio que a rodeava. Falei com o vô, um senhor elegante, que me disse que ela tem uma doença rara que os médicos não conseguem detectar tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos, que eles gastam na faixa de uns trinta mil reais por mês em convênio médico e que ela frequenta uma escola de crianças normais de forma de ser incluída na sociedade. Perguntei se eu podia tentar me comunicar com ela e, sendo autorizado, enchi uma bexiga dessas de criar figuras e a coloquei na frente da menina. Ela simplesmente a afastou com uma mão. O avô me disse “não adianta, ela fica no seu mundo e ainda não fala”. “Já tentamos de tudo e chegamos à conclusão de que o problema dela é espiritual”. Espiritual? Perguntei. “Sim, a gente acha que é carma”. Dito isso como conclusão, parece que ele nada mais iria escutar do que eu dissesse. Mesmo assim, argumentei: Bom, menos mal que vocês têm dinheiro para poder dar uma estrutura mínima e procurar uma solução para o problema dela. Também comentei que em São José dos Campos, cidade onde eu moro, existe um serviço público municipal gratuito chamado “Integra” que atende pessoas com todo tipo de deficiência e que lá há uma estrutura parecida como a que ele me disse oferecer o convênio para sua neta, com psicólogo, terapeuta ocupacional, etc. e que ainda oferece oficinas de arte.

Despedindo-me do avô e da menina várias coisas passaram pela minha cabeça. A primeira é que dinheiro não compra tudo. A segunda foi: "Olha só, gente rica acredita em carma". A terceira, é o questionamento de porque eles têm tanto medo de perder o controle da situação não deixando a menina solta...

 

 

Imagem de internet