domingo, 1 de setembro de 2019

"Teatro Popular", tema do Festivale 2019

Esse ano o "Festivale", Festival Nacional de Teatro de São José dos Campos, do qual participo de alguma forma há uns quinze anos, homenageia o Teatro Popular. O que será popular? Para mim sempre foi o fato de ir para rua estabelecer um contato direto com o povo, prevalecendo o improviso, o inusitado.

Nos encontramos num momento de desvalorização das artes em geral, de questionamento do que se pode ou não falar, de enxugamento de gastos.

Os editais públicos são uma saída para sobrevivência, por isso é que eles são concorridos por um número cada vez maior de grupos e acabam prevalecendo aqueles que apresentam trabalhos de melhor qualidade ou os que nas suas abordagens não comprometem as instituições.

A situação para mim tem ficado bem restrita, já que tenho tido dificuldades para conseguir meu sustento no chapéu, de forma espontânea, como estou acostumado. Por isso, entre outras coisas, acabei tirando da gaveta o “Milongas Sentimentais”,  que não apresentava a mais doze anos. O “Milongas” faz um paralelo entre a história e a cultura Brasileira e Argentina no contexto dos países de Latino-América. Para a nova versão atualizada do espetáculo chamei o violonista Diogo Oliveira que executa a música ao vivo.

Tanto o “Milongas Sentimentais” como “Dois Brincantes e o Príncipe Feliz” fazem parte da programação do festivale 2019. O primeiro como espetáculo convidado e o segundo patrocinado pelo Fundo Municipal de Cultura da cidade, fazendo parte do projeto “Dois Brincantes e o Príncipe Feliz na Praça do Bairro”.

Programação completa do 34º Festivale:

Cartaz do Projeto "Dois Brincantes e o Príncipe Feliz na Praça do Bairro"
Arte de Bianca Maeggi

segunda-feira, 29 de julho de 2019

Da rua para o palco...

De repente, as luzes da platéia se apagam e o clima fica formal, artista de um lado e público do outro. Cadê as pessoas com as quais costumo me comunicar nas ruas? Estréia nunca é fácil. Apesar de ter sido apresentado por muito tempo, o velho espetáculo se torna novo depois de doze anos de ausência.
 Falando em palco, existe a possibilidade de improvisar com o público sem precisar interagir diretamente com ele, mas isso requer muito ensaio e treino. O “Milongas Sentimentais” possui um cenário volumoso, com uma quantidade respeitável de objetos, mas, oferece um bonito visual de teatro popular. Para realiza-lo é preciso estar super antenado a um monte de detalhes como à mímica, o texto e as gags de palhaço, somado à troca de figurinos e cenários em cena para interpretar quatro personagens, à afinação das músicas cantadas, etc. O importante é que a estrutura ficou pronta, inclusive o final que precisou ser atualizado. A reestreia se deu no C.E,T. (Centro de Estudos Teatrais) da Fundação Cultural Cassiano Ricardo, em São José dos Campos e contou com a participação especial do Violonista Diogo Oliveira que tocou a música ao vivo.

Espetáculo "Milongas Sentimentais"
https://issuu.com/fccrsjc/docs/programac_a_o_jul_2019_issuu

De volta para as ruas de Campos do Jordão no final da temporada de inverno sou mais uma vez um anônimo para muita gente e um velho conhecido para alguns, depois de anos de convivência. Tenho resgatado vários registros de pessoas, como uma foto que foi tirada por uma criança de uns doze anos de idade em novembro de 2018, que segundo os pais, tem vocação para fotógrafo..

Foto do menino "Lipe" nas ruas de Campos do Jordão

Milongas Sentimentais - Teatro Popular, Espetáculos:
http://mimicoandarilho.blogspot.com/p/espetaculos.html

Mímico Andarilho: Intervenções e Performances:
http://mimicoandarilho.blogspot.com/p/intervencoes.html





segunda-feira, 15 de julho de 2019

"Milongas Sentimentais - Teatro Popular"

Chegando em Campos do Jordão depois de algum tempo de ausência, vejo, para minha surpresa, que o antigo ponto de táxi, que com a construção do calçadão, virou área coberta, servindo de ponto de encontro de trabalhadores de todo tipo, tanto do comércio local, quanto de artesãos, vendedores de bugigangas, de bexigas ou de algodão doce; de catadores de latinhas, de artistas de rua e de mendigos de toda espécie estava incrivelmente limpo! Alguém tinha lavado o chão com água e sabão. Literalmente: “Passaram o pano...”

Vai ver que foi por causa da chegada da temporada de inverno, mas, a prefeitura mandou retirar a galera que trabalhava no calçadão.Junto com gente “nada a ver” foram atingidos no mesmo bolo artistas como Henrrique, talentoso desenhista peruano que estava em sua segunda temporada na cidade A situação nesse ano incomodou as autoridades e comerciantes por causa do congestionamento de trabalhadores autônomos que aproveitam o grande fluxo de turistas para tentar tirar o seu sustento.

Nos finais de semana da temporada, pelas ruas do centro turístico de Campos, circula um tipo de público heterogêneo em que se mistura desde pessoas de classe media alta até pessoas simples que vão passar o dia de excursão.

Apesar de trabalhar a vinte e cinco anos na cidade, a minha atividade é permitida simplesmente porque não ocupa um espaço delimitado. Então, fico de lá para cá procurando um cantinho na frente das mesas de algum restaurante e brinco com quem tiver interesse, no meio da “muvuca”.

Eu gosto do desafio de tentar conseguir dar certo num espaço bem limitado. As pessoas questionam: - “Mas, quando tem muita gente, não é melhor?”.
Claro que não, para o diálogo acontecer tem que existir um espaço de respiração.

Das poucas mesas dos bares que consigo conquistar com minha mímica interativa vem elogios e perguntas tais como:
 - “De onde você saiu?”.
A o que eu respondo:
- “Sou um simples sobrevivente”
Ai eu ouço:
- “Alem de ser um sobrevivente, você é um sobrevivente que vive de arte".

Ou então:
- “Estamos precisando de pessoas como você, que nos tragam alegria”.
Ao que respondo:
- “Tenho feito o melhor que posso”

A máxima foi “Você é patrimônio da cidade...”.
Caracas, não sabia que era tão importante assim...

Em fim, Já atravessei várias crises com minhas intervenções de rua em mais de três décadas de Brasil, mas a de agora é mais complicada, já que esta além de econômica é de valores. Quando vou para rua a minha intenção e estabelecer um trato humano, resgatando a ingenuidade, o lúdico, o diálogo e a paz, independente à idade ou à condição social do público presente.


Com os espetáculos apresentados pela nossa companhia acontece o mesmo, tentamos desenvolver temas que aproximem as pessoas.

Hoje, como “Milongas Sentimentais - Teatro popular”, realizamos três espetáculos de nosso repertório”:

-         “Na Rua” ou “As Peripécias do Mímico Andarilho”. Espetáculo de Mímica e Clown Interativo.

-         “Dois Brincantes e o Príncipe Feliz” – Espetáculo de Teatro Popular.

-         “Milongas Sentimentais” – Comédia de Teatro Popular.


Arte de Rua - Semana do Circo  2018 - FCCR - SJC SP



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terça-feira, 23 de abril de 2019

Instituições apoiadoras da cultura.

Apesar de sempre ter sido um crítico dos laços institucionais e durante muito tempo  conseguido sobreviver de forma independente, não deixo de reconhecer a importância que as instituições tem como apoiadoras e incentivadoras tanto do meu trabalho como dos artistas da minha região em geral.

Em São José dos Campos, cidade onde moro, tenho crescido graças a projetos desenvolvidos por instituições como a Fundação Cultural Cassiano Ricardo, SESC ou a hoje extinta Oficina Cultural Altino Bondesan, da Secretaria do Estado da Cultura. Através delas tenho participado como aluno e também como ministrante de diversas oficinas, assistido a espetáculos de qualidade e apresentado minhas histórias e interações como mímico-palhaço. Através dos seus agentes culturais tenho sido chamado para desenvolver o que sei fazer melhor que é "brincar".

Ainda alimento o sonho de sair fazendo um tour mambembe, realizando percursos em regiões diferentes do Brasil, como o fazia quando era jovem; me tornar verdadeiramente um “mímico andarilho”. Hoje, tanto os meus colegas quanto eu vivemos basicamente das verbas dos editais. Tudo é feito de um jeito formal.

Na rua, exposto a tudo e a todos, está ficando difícil tirar o sustento no chapéu, na atual conjuntura do país, com quatorze milhões de desempregados. Além do mais, em Campos do Jordão, onde sempre me apresentei de forma espontânea, criando um diálogo com o público turista, tenho perdido o meu espaço por uma questão de falta de infraestrutura e  de apoio, já que tudo virou meramente comercial.

De forma “oficial”, em São José dos Campos, além de participar do Edital de "Circulação de apresentações artísticas" com meu espetáculo solo, tenho me apresentado na Semana do Teatro, da Fundação Cultural, no último mês de Março,  com “Dois Brincantes e o Príncipe Feliz”, espetáculo da nossa companhia e  com “Histórias de Pia” (crianças de pequeno porte), uma nova empreitada, onde participo como ator coadjuvante e músico de um divertidíssimo espetáculo de teatro de bonecos da companhia de um amigo.
Também comecei dar um curso de mímica e improvisação para o clown de dois meses de duração pelo SESC da cidade, dentro de um projeto que atende jovens de 13 a 29 anos de idade.

Quando digo para os meus alunos que eu sou artista de rua de origem eles parecem não acreditar, como se fosse uma atividade em extinção. Apesar disso, eles estão abertos a tudo, inclusive a ir para rua, se for o caso...

Cito aqui um trecho de “Cartas a um Jovem Poeta”, de João Maria Rilke, que li pela primeira vez quando tinha 17 anos e que, apesar de falar da escrita, abrange as formas de expressão de arte em geral:

“Volte-se para sim mesmo. Investigue o motivo que o impele a escrever; comprove se ele estende as raízes até o ponto mais profundo do seu coração, confesse a sim mesmo se o senhor morreria caso fosse proibido de escrever. Sobretudo isto: Pergunte a sim mesmo na hora mais silenciosa de sua madrugada, preciso escrever? Desenterre de sim mesmo uma resposta profunda. E, se ela for afirmativa, se o senhor for capaz de enfrentar essa pergunta grave com um forte e simples “preciso”, então construa sua vida de acordo com tal necessidade”.

As instituições tem servido de suporte para nós artistas conseguirmos desenvolver nosso trabalho com um mínimo de dignidade.

Esse ano, com nossa companhia "Milongas Sentimentais" de Teatro Popular, contaremos com uma verba do Fundo Municipal de Cultura, já que fomos selecionados  para desenvolver o projeto "Dois Brincantes e o Príncipe Feliz na Praça do Bairro" (Teatro/Comunidade), que vai abranger sete bairros de várias regiões da cidade.

Link Programação Semana do Teatro: https://issuu.com/fccrsjc/docs/cata_logo_semana_do_teatro_2019_iss

Link Programação SESC https://www.sescsp.org.br/programacao/186984_MIMICA

link da Companhia: https://www.facebook.com/Milongas-Sentimentais-Teatro-Popular-173882529422531/

Link da página do Mímico Andarilho https://www.facebook.com/MimicoAndarilho/

Link de vídeo de Mímico Andarilho https://www.youtube.com/watch?v=A6hWh0RAf0w&t=418s





quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

O Pierrô e o Arlequim

O Carnaval está chegando finalmente, e esse é em Março, o que acaba atrasando o funcionamento das coisas, já que no Brasil o ano começa realmente depois do carnaval.

Resta-me ir mais uma vez batalhar meu sustento nas ruas em Campos do Jordão, na base de rodar o chapéu para os turistas que frequentam a cidade, consciente das dificuldades que vou encontrar.

Redescobri os personagens da Commedia dell’arte Pierrô e Arlequim junto a Colombina no livro “O Canto da Praça” de Ana Maria Machado e me senti identificado com os dois.

O meu Arlequim tem mais êxito com o público das ruas porque é mais para cima, alegre, festivo e otimista.   Por sua vez, o meu Pierrô é mais introspectivo, delicado, poético e romântico; detém-se para dialogar com uma criança, toca uma música na sua flauta e esquece da necessidade do dinheiro; é mais sonhador e menos objetivo.
Se prevalecer meu espírito de Pierrô até um cachorro vira latas tentando pegar uma pomba ao voo chama mais a atenção do que eu. Se fosse um bêbado me atrapalhando também chamaria...

Lembro das palavras de um amigo comerciante que me disse: “Ninguém vai te dar nada, você tem que fazer acontecer, fazer o povo rir”. É bem isso, para dar certo você tem que se mostrar forte, ser “O Cara” , “ O Arlequim”.

Cito um trecho de uma palestra do Filósofo Leandro Karnal no programa Café Filosófico da TV Cultura falando da vaidade: “Hoje em dia instituímos a vaidade como virtude. A humildade não pega bem. Temos a necessidade de ser únicos, especiais, fortes, onipresentes. A nossa vaidade não permite mais a falha, não permite a tristeza, não permite a dor e o fracasso. Hoje devo subir sem queda. É função dos pais estimularem o novo nome que é auto estima. Eliminarem a dor, a depressão e o choro”. A melancolia não pega bem.

O Figurino do Arlequim é alegre, colorido. O do Pierrô, branco e preto, igual às cores do meu personagem mímico-flautista.
Um dia desses, depois de comentar com uma amiga que eu tinha errado umas notas tocando flauta nas ruas, obtive a seguinte resposta: “As pessoas não percebem o erro; elas só querem festa”.

Acredito no equilíbrio entre o Arlequim e o Pierrô, assim como acreditou a Colombina


Foto de Mel Braga

Link de Programa Café Filosófico: https://www.youtube.com/watch?v=NNUZrOORaiU

Link da "Estante Virtual: https://www.estantevirtual.com.br/livros/ana-maria-machado/o-canto-da-praca/3234738727

quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

Com o olhar da criança

Na ingênua e doce figura da menina tudo combina em tons de rosa, o laço de fitas no cabelo, seus sapatos, o ursinho de pelúcia que ela carrega no colo e até suas olheiras, sintoma, talvez, de alguma alergia oftalmológica. O nome dela e Jade, mas bem que poderia ser “Jade Rosada”. É ela quem nos recebe junto a sua tia, responsável pela nossa apresentação no Auditório Cláudio Santoro, em Campos do Jordão.

Contratados pela entidade que cuida o Museu Felícia Leirner, tudo se mostra imenso para nós, assim como a realidade aos olhos de uma criança. O enorme elevador de carga onde depositamos os objetos da peça, os altos muros de tijolo do auditório, o iluminado teto abobadado que deixa aparecer à exuberante mata em volta através das suas vidraças e até o enorme palco, por onde fiquei andando como beduíno no deserto, enquanto as pessoas visitantes do espaço entravam e sentavam na platéia, vendo a atividade preste a acontecer.

Apesar de que o combinado era apresentar o espetáculo num canto do palco, colocando as crianças sentadas no mesmo, formando um semicírculo em volta da gente, não teve jeito; tivemos que apresentar da forma tradicional, ou seja, nos no palco e o público, de todas as idades, nas poltronas do auditório. Colocamos os objetos na frente, no meio do palco e, como a história começa com a nossa chegada e a montagem do cenário na frente das pessoas, tudo se desenrolou naturalmente, como se fosse na rua. Vindos de uma semana de trabalho intenso, onde tivemos a oportunidade de mergulhar na trama, junto ao auxilio do diretor e dramaturgo Dagoberto Feliz, patrocinados pelo projeto “Cidade em Cena” do SESC de São José dos Campos, encaramos o desafio com o entusiasmo necessário.

Para mim foi um prazer incrível ter a oportunidade de me apresentar no palco daquele templo onde acontece o Festival de Música no inverno, depois de quase vinte e cinco anos nos quais venho realizando intervenções, de forma espontânea, nas ruas do centro turístico de Campos do Jordão.
Senti-me criança, como Jade, que ficou ali, sentada na frente da gente, cúmplice da nossa experiência.

Sem dúvida, o texto que escrevi para “Dois Brincantes e o Príncipe Feliz”, adaptação do conto original do escritor irlandês Oscar Wilde, reflete minha vivência em Campos e a visão que tenho sobre o contraste que existe entre as pessoas pobres moradoras da cidade e o turismo de alto nível que movimenta sua parte financeira.

O Príncipe Feliz da nossa história se desfaz das suas riquezas e as entrega aos pobres para amenizar o sofrimento destes, assim como nós as entregamos ao público presente.

Na mistura de tristeza e de alegria que a peça produz temos nos olhos arregalados das crianças a resposta positiva que esperávamos no final da apresentação, especialmente de Jade, a menina cor de rosa, que nos acompanha até o táxi que nos leva de volta até a rodoviária.

“Dois Brincantes e o Príncipe Feliz”
Apresentação realizada no dia 23 de Dezembro de 2018
Apoios de Marcelo “Brasões de Família” e de Cine Clube Araucária.
Realização. “Museu Felícia Leirner - Campos do Jordão”.


Foto: Ana Paula


https://www.museufelicialeirner.org.br/

http://www.cineclubearaucaria.org/

https://www.facebook.com/pages/category/Arts---Crafts-Store/Loja-dos-Bras%C3%B5es-de-Fam%C3%ADlias-559908360850261/

559908360850261/https://issuu.com/sescsjcampos/docs/selecionados_especial_cidade_em_cen

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domingo, 25 de novembro de 2018

"Andarilho de bandeira branca"

"Você resgata um tipo de trato brincalhão e carinhoso que as pessoas foram perdendo com o tempo. Hoje, elas ficam ou brigando umas com as outras por causa de política ou então, cada uma na sua, na frente da tela do smartfone”. Essas foram às palavras de um senhor de classe média, logo apos assistir minha performance espontânea, na frente do “Boteco” do Djalma, em Campos do Jordão, uma semana depois das últimas eleições presidenciais. Essa apresentação foi bem especial e contou com a trilha sonora dos meus amigos Elayne e Matheus que estavam executando o som ao vivo dentro do boteco e com os quais sempre acabo tocando pandeiro, acompanhando o seu repertório de forró.

Como bom “Mímico andarilho”, desde criança já gostava de sair andando sozinho pelas ruas, atravessando bairros, descobrindo lugares e pessoas diferentes.
Relato aqui a experiência que tive nos dias anteriores as eleições, em São José dos Campos, cidade onde eu moro.

No Sábado, na semana anterior das eleições, fui realizar uma apresentação do meu espetáculo “As Peripécias do Mímico Andarilho” pelo projeto "Circulacão", da Fundação Cultural Cassiano Ricardo, na praça Afonso Pena, no centro da cidade. Estava preparado, como de costume, para incorporar qualquer tipo de imprevisto à história, que fui adaptando ao longo dos anos. Dessa vez “o fato” foi à segunda manifestação das mulheres que reivindicavam o "ele não", na época. Entre uma galerinha de gente jovem estavam alguns amigos meus da minha faixa etária.

O responsável da minha atividade perante a Fundação pediu para me afastar do grupo e ficar interagindo livremente com as pessoas, como o faço quando vou espontaneamente para as ruas, num outro canto da praça, onde acontece uma feira de artesanato, já que não podia ser associada à manifestação à instituição. Os artesãos adoraram a Idéia. Eu pude observar o grupo de manifestantes ao longe, do lado de fora.

Vi cinco bandeiras vermelhas que vieram envolver o grupo. Ouvi deles um tipo de discurso antigo, panfletário. Senti a rejeição dos populares que passavam pelo local em apoio ao outro candidato. Para mim ficou bem claro, apesar de não concordar nenhum pouco com as opiniões e as propostas do novo presidente, que a solução não está no confronto e sim no dialogo.

No Sábado posterior, um dia antes das eleições, rolou uma manifestação da mesma natureza numa outra praça do centro chamada "Do Sapo", esta, organizada por jovens militantes de esquerda junto aos artistas locais e, da qual, fui convidado a atuar como representante dos artistas de rua da cidade.

Cheguei no local na hora marcada e vi alguns grupos partidários. A cor tinha mudado do vermelho para o roxo, mas, eu senti o mesmo tom "abanderado" da outra vez. Quando o discurso passa a ser dogmático até a cor verde e amarela perde o sentido.

Vendo tudo aquilo, dei meia volta em sinal de retirada, mas, acabei voltando para praça.

Estacionei minha bicicleta do lado da fonte onde quatro sapos ficam cuspindo água pela boca, me caracterizei ai mesmo na frente do público e hasteei minha bandeira Branca da paz e do dialogo, amarrando-a ao guidão da magrela.

Percebi que o grupo de manifestantes era bem heterogêneo, inclusive, havendo várias famílias no encontro. Interagi no meio da moçada como o faço de costume na rua. Com movimentos rápidos fiz de conta que ia mergulhar na fonte dos Sapos. Depois peguei a garrafinha da bicicleta e brinquei, jogando pingos de água nas pessoas em volta. Uma menininha de dois anos de idade aceitou minha água para beber e a gente descobriu que ela estava realmente com sede; a toda hora vinha pedir mais água. Peguei meu mini banquinho na bike e fui sentar do lado da galera que assistia ao show de rock que rolava num palco improvisado. Depois levantei e fui para o outro lado da fonte. Apareceu um menino de uns sete anos de idade que me fez correr várias vezes detrás dele pela praça toda até juntos cansarmos e perdermos o medo. Na seqüência apresentei um número de mímica interativo onde as pessoas pulavam uma corda imaginária ao som de rock. No fim toquei chorinhos na minha flauta transversal para os vários grupos espalhados no local.

Voltei para casa vestindo o personagem, pedalando minha bicicleta por ruas e avenidas, atravessando bairros. A trilha sonora do percurso, executada desde minha caixinha de som pressa à cintura, foi do maravilhoso jazz chapliniano do músico belga Django Reinhardt.

Empolgados, os transeuntes partidários do atual presidente eleito, gritavam palavras de ordem para mim, mas, sem a mínima agressão, já que tratava-se da figura de um palhaço de bandeira branca.

"Chegando em casa". Foto tirada de um celular por Karol Reis
Link do som do Jazzista Django Reinhardt https://www.youtube.com/watch?v=3WHQ0twHQgo