quarta-feira, 29 de abril de 2020

"O Apelo da Selva"


Buck era um cachorro de grande porte que morava numa fazenda de uma família de classe média alta, que o tratava como um rei, até que um dia fora raptado e levado à força para puxar trenós na região gelada do Vale do Rio Klondike, no Canadá, onde os homens se aventuravam à procura de ouro no final do século XIX.

O certo é que Buck deixou o meio “civilizado” em que nasceu e se criou para enfrentar todo tipo de adversidades num meio desconhecido. Começava assim a sua luta pela sobrevivência, na qual teve que brigar para ganhar o seu espaço, matar para não ser morto, ter atitude; impor. A sua vida deu um giro de trezentos e sessenta graus e ele virou puro instinto. Nessa dura aventura em terras geladas, passou pelos cuidados de vários donos, até encontrar um homem que o tratava realmente com carinho.

Mas Buck ouvia o clamor da selva, que o chamava para si através do uivado dos seus ancestrais, os lobos. E quando seu dono, último elo civilizatório, veio falecer, ele se juntou aos seus pares, voltando às suas origens.
  
Li esse livro, que no Brasil tem tradução de Monteiro Lobato, há um bom tempo, a pedido de um amigo “conselheiro” que vislumbrava a minha busca como ser humano e artista.

Vem-me essa história à cabeça nesse momento inusual que estamos passando. De repente tudo parou e fomos obrigados a ficar dentro de casa, isolados uns dos outros. Vejo pessoas ficando desesperadas, com tédio, sem saber o que fazer. O bom é que o fato de não poder sair nos obriga a olhar para nós mesmos.
O isolamento, a quarentena, leva-nos a fazer uma viagem interna, a mergulharmos no nosso interior e nos deparamos com a nossa história. Lembramo-nos da infância, das primeiras impressões que tivemos das coisas, as sensações, os cheiros, os sabores...
O universo mágico da brincadeira da criança. Nascemos puros e livres de conceitos e aprendemos através da nossa experiência de troca com o meio, influenciada pela educação que recebemos.

Em tempos de calamidade pública como este é que a gente se questiona sobre temas tais como: “O que é que a gente realmente precisa para viver?”.

Estamos fazendo parte de uma história tirada de um livro de ficção científica. A natureza se vingando dos maus tratos recebidos por parte do ser humano, através de um vírus que foi gerado por ele próprio. O planeta agradecendo pelo intervalo da máquina de produção e consumo. Rios e ar despoluindo e animais tomando conta da “selva de cimento”, agora inabitada, em tempos de isolamento.

A história de Jack London remete ao modo de vida dos povos indígenas que constroem suas malocas e vivem do cultivo, da caça, da pesca e se curam com o uso de plantas medicinais. Vale lembrar que várias doenças foram levadas para as tribos indígenas isoladas por meio do homem “civilizado”.

No começo da revolução industrial, as coisas eram feitas para durar. Hoje, apesar dos avanços tecnológicos, tudo virou descartável. O Brasil, de industrial tornou-se importador e pouco produtor. Vivemos na era do capital improdutivo, em que dinheiro gera dinheiro.

Quem sabe esse momento seja bom para pensarmos na possibilidade de mudança tanto no plano individual como no coletivo. Quem sabe essa crise sensibilize nossos governantes a investir em educação, em incentivo à pesquisa, à ciência, tecnologia e produção industrial própria para termos realmente “Ordem e Progresso” como nação.

Por enquanto, como simples artista de rua, fico com a mensagem tirada do cachorro Buck, que se deixou levar pelo seu instinto e dever comunitário.

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